Você iria me impedir?
É, a vida não para mesmo, sempre com surpresas e dias ruins,
sem aviso nem prelúdio de melhora, sem deixar escolha. Um dia daqueles onde o
céu ta fechado e ameaça chover, você não encontra nada de novo pra fazer no
final de tarde e pensa em chutar o balde. Já aconteceu com você? Normal, no
final tudo dá certo.
Um dia desses parei pra pensar, em tudo de ruim que estava
acontecendo e no que fazer pra melhorar – fui à rodoviária. Sim. Rodoviária. A
própria, cheia de universitários comprando passagens pra visitar a família,
gente furando fila, malas e mochilas e mochileiros e universitários, tantos que
era impossível contar. E o que faziam? Reclamavam das suas provas de
estatísticas, bah, eu aqui sofrendo pra passar no vestibular.
Sentei ali nas escadarias e pude ver a vida passando em
frente meus olhos. Pessoas indo e vindo, cada um com sua reclamação. E a chuva
resolveu cair. Então se fez passos e pingos, as vozes sumiram e era só passos e
pingos.
Naquela rodoviária eu
tive uma sensação de liberdade tanto emocional quanto física que eu poderia
pegar qualquer ônibus e sumir em paz comigo mesma. Mas eu não queria ir embora,
eu não podia ir embora... Era vontade de fugir e avisar aqueles que pudessem me
impedir, só pra isso, pra ver quem iria me impedir.
Mais inaceitável que possa parecer ficar, era partir...
Então fiquei, não me rendi ao mundo além da rodoviária e da chuva, resolvi
experimentar o que tem de bom por aqui. Com meu batom vermelho, erguer a
cabeça, passar no vestibular, criar um esconderijo pras mágoas e esperar que
alguém me peça pra ficar.
A rodoviária está lá a minha disposição, quando eu bem entender
me salvar... E seguir, livre, sozinha, na chuva...


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