Sobre o Emplasto
Já fazia alguns dias que nós tínhamos nos reencontrado por acaso, eu na loja dele em busca de bugigangas para o celular e ele me encarando com certa segunda ou terceira intenção. Não posso negar que aqueles olhos azuis de antigamente ainda queimava algo dentro de mim e o vendo assim de perto, resolvi retribuir o sorriso.
Falamos-nos uns dias depois pela internet e eu resolvi me
identificar por uma mensagem de texto no celular, afinal, eu estava solteira
naquela época e talvez eu precisasse mais do que uns drinks vez ou outra pra
cicatrizar as velhas feridas.
Foram cerca de quatro dias para o primeiro beijo num
parquinho da cidade e duas semanas para ele me pedir em namoro. Era tanto tempo
sem se ver e agora nada mais nos impediria de nos afundar num romance repentino
e imaturo. Ele ainda fervia meu sangue.
Encontrávamos-nos escondidos sempre que dava, era só um
telefonema e ele aparecia quando uns de casa dormiam ou atendiam ao telefone.
Alguns instantes e beijos afoitos a tardezinha e a noite, ora até dentro de
casa, ora ele me levava de carro pra um canto qualquer.
Eu estava curtindo meus dias como nunca fiz na vida e
arriscando a herança dos meus pais, eu nem ligava, surtei e joguei a razão num
vendaval que passara. Eu estava livre com o moço dos olhos azuis que todas
queriam ter.
Certa vez estava tudo escuro no meu quarto, eu estava
tentando dormir. Era tudo silêncio, só ouvia a água cair do chuveiro, pois
alguém estava no banho. Até que sem mais nem por que, meu celular começa e
vibrar. Era ele.
“Estou aqui em frente sua casa.”
Era muito arriscada a minha ida até ele, muitas portas
barulhentas iriam ranger quando eu passasse por elas e as demais pessoas iriam
notar minha falta em algum momento. Mas eu fui; com todo o meu medo eu fui.
Lembro-me como se fosse ontem a música que começou a tocar
na minha mente e que eu a tornei nossa. Era MPB. A lua naquela noite estava
calma e senera, nem o vento fazia barulho e meus passos no chão eram
imperceptíveis. Eu tremia de medo e de desejo, Julieta também deve ter sentindo
o mesmo.
Cheguei até a última porta, que dava acesso à rua, espiei num
vão do portão enferrujado e vi o carro dele, um pouco de neblina e o carro
dele. O estofado era macio, tinha cheiro de coisa nova, um típico Dodge Polara
73 na cor azul metálico. Um clássico.
Eu sei que ele adorava me ver toda enfeita de pin-up com
meus laços no cabelo e vermelho nos lábios, mas aquela noite eu estava com uma
roupa qualquer, de ficar em casa, nada justo ao corpo, nenhuma cor nos lábios e
um medo no olhar. Ah, o cheiro dele, o olhar dele, o andar dele ao atravessar a
rua, me senti num daqueles filmes do velho oeste e eu amava aquela
sensação. E eu sabia que ele iria me
chamar de moça ou algo assim.
Espiei para ver se não tinha outra pessoa por perto e dei
sinal para ele se aproximar.
“Entra aqui, assim ninguém vai ver...” – eu disse, puxando-o
pra dentro de casa.
Nunca vi pupila mais dilatada nem pulsação tão forte, os
olhos que eram azuis num instante estavam pretos e eu quase podia ver os vasos
sanguíneos no fundo deles. Nem pude terminar a frase e já estava de corpo todo
para fora de casa, antes mesmo de dar mais uma conferida na vizinhança. Meu
pulso na mão dele, meu rosto no rosto dele, minha boca na boca dele.
E o resto? O ranger das portas, o vento contra, as más
línguas, a inveja alheia? Tudo se dissolveu num beijo, pairava sobre nós a
ousadia e insanidade de duas almas apaixonadamente dissimuladas.
Ele me prensou como era de costume, uma última vez sobre
seus lábios atrevidos, até abrir os olhos e me encarar feito quem acaba de
cometer um delito.
Eu podia sentir no estomago a culpa e o desejo se fundirem.
Imaginava que alguém poderia estar vendo e indo correndo nos dedurar, imaginava
também que aquele momento iria ser lembrado e escrito num pedaço de papel onde
o toque da pele dele pudesse ser sentido por quem lesse e até posto num frasco.
Talvez eu pudesse até inventar de fato o Emplasto Brás Cubas e curar a
melancolia alheia.
“Você é louco?” – foi a primeira coisa que eu disse quando
meus pés voltaram a tocar o chão.
“Sou, por você!!!”
E então ele virou-se e foi embora, deixando um rastro de
perfume. Assim a magia caiu por terra e eu fui obrigada a retornar à vida real.
Hoje eu já não sei por onde ele anda ou com quem ele passa
seus dias, ele deve estar chamando outras de “moça” ou de “kawaii” como ele
costumava dizer. Ele talvez esteja usando bigode, tirado o topete que fazia de
nós Johnny Cash e June Carter. Tudo bem, isso já não importa, somos apenas mas
um casal eternizado no tempo. Mas a
certeza que eu tenho é que ao abrir o frasco ele ouvirá aquela nossa música,
sentirá meu rosto no dele, o sangue ferver e cura da melancolia. Satisfação
garantida.


Como que faz para parar de morrer de amores? *----*
ResponderExcluirAmei <3