O caso da bailarina
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esde criança ela fazia usava vestidos rodados e rodopiava no
quintal junto com o vento de fim de tarde. Era centrada, regrada, sonhadora –
“mamãe, quero ser bailarina”. Jamais teve outro sonho ou meta, nunca espiou
outra profissão ou fez teste de aptidão pela internet. Os pais lhe davam amor e
laços de cabelo, queriam que ela estivesse em uma universidade – caso a dança
não lhe sustentasse. Aos quinze, trocou a sapatilha de pano pela de gesso e
permitiu que elas lhe machucassem os pés. Aos dezoito não entrou na
universidade pela bendita matemática, mas não iria desistir do seu sonho. Todos
os dias eram sempre iguais, acordava as nove, fazia o coque e ia para a aula de
ballet, a tarde toda debruçava sobre os livros e estudava para o vestibular, à
noite, cursinho. Uma vida feliz e serena, nunca pensava em coisas diferentes,
nunca mudava os planos, a não ser por aquela noite.
Ela já estava de coque andando em passos largos na direção
oposta ao seu caminho de sempre, ela havia passado perfume, mal se lembrada qual
fora a última vez que isso acontecera, e batom vermelho, a primeira vez que
teve coragem que usar o de sua mãe. Estava apressada e ofegante, até hoje as
pessoas que a viram não sabem dizer o motivo. A cidade estava calma enquanto as
luzes dos postes acendiam um a um enquanto a noite avançava. A menina chorava e
apressava o passo.
Até que enfim ela pareceu encontrar quem procurava. Ele era alto, magro, pele clara,
rosto limpo, cheiro de amaciante e lábios molhados. Ela correu em sua direção
num abraço esmagador, dava pra notar a veia do pescoço dele pulsando e os olhos
verdes e enormes dela, fechando-se com força.
Eles seguiram abraçados até o museu da cidade. Estava aberto
e sem guardas, se prestassem atenção eles poderiam até ouvir o coração deles
batendo. Subiram cinco lances de escadas empoeiradas e no último piso ele se
sentou no chão enquanto ela girava e rodopiava os passos de dança que mais
gostava. Algo de diferente brilhava em seu olhar, talvez outro sonho escondido
ou uma mulher com desejos guardados e enferrujados por dezenove anos.
As poucas pessoas que passavam na calçada lá embaixo viam a
sombra das curvas da menina pela janela, agora não mais presas e escondidas
debaixo dos seus tecidos justos, que prendiam até seus belos seios.
Lá em cima um novo mundo se abria para ela. Ele levara um
bom vinho na mochila, ela desfez seu coque e revelou um cabelo comprido e
ondulado, seu corpo era todo esguio, quase transparente e com algumas sardinhas
nas bochechas e nariz. Qualquer toque dele a fazia estremecer de desejo.
Estavam nus diante de teias de aranhas e arquivos antigos, ele tirava a meia
calça dela com cuidado para não desfiar, a calcinha bege levemente úmida e
cheirando a banho tomado, ele beijava sua pele rosa, macia, intocada, doce. Os
joelhos apoiavam-se no piso de madeira enquanto ela arqueava o corpo para traz
e seus cabelos tocavam o chão. Os pés pequenos de bailarina até que eram
perfeitos demais para caberem em uma sapatilha tão pequenina, ela os passava
nas costas dele enquanto ele beijava suas coxas. Era uma mulher desconhecida
que saia do corpo dela aquela noite e estava deitada ali, sem fôlego, no chão
daquele museu antigo. “Vem...” – ela sussurra baixinho.
Outro dia amanhece silencioso na cidade e assim permanece
até a tarde, quando um aglomerado de viaturas policiais fecham o quarteirão com
faixas amarelas e pretas e os
noticiários anunciam – “Garota de dezenove anos desaparece na noite passada no
museu Charles Bukowshi. No local os peritos encontraram apenas uma meia calça
rosa-bebê com manchas de vinho tinto.”
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