Às sobras de um romance
Conheciam-se desde sempre, ele era popular e ela tímida.
Certas vezes os seus olhares se cruzavam na fila do mercado e ele permanecia
até que ela desviava a atenção e corava as bochechas, coisa boba, ela nem
notava. Ela o achava demais, aquele olho claro, alto, loiro, não, não era pra
ser, ele devia estar olhando por outro motivo, bobagem.
Assim o tempo passou e ela o esqueceu. Namorou um, dois, não
deram certo, foram lágrimas e lágrimas que deixou em seu travesseiro. Ela mudou
de escola, conheceu mais cinco amigos que se tornaram irmãos. Ela o
reencontrou.
Desde o início essa história não era pra dar em nada, mas
depois de três anos, ela com um corpo de mulher e roupas mais femininas,
resolveu acreditar que aquele antigo olhar era mesmo pra ela.
Eles trocaram telefone, e-mail, sorrisos e depois de quatro
dias, o primeiro beijo, num parquinho da cidade. Era noitinha, estava frio e
ele sugeriu irem para o carro ouvir Beethoven. Ele a pediu em casamento e
prometeu responder as mensagens o mais rápido possível.
Ela o fez feliz por 30 dias, ele a mimava. Ela bagunçava seu
topete e ele a ensinava pronunciar a palavra “Blastoise”. Ela ria pra ele, ele
a escondia dos conhecidos com um beijo longo. Ela o visitava numa tarde quente,
ele oferecia uma cadeira e ventilador. Ela dava chocolate pra ele, ele fazia
cócegas na barriga dela. Eram doces e descomplicados, nunca brigaram, eles se
completavam e se aventuravam um protegendo o outro, sem armadura ou medo de
cair.
Os 30 dias passaram como um vento forte, bagunçou muita
coisa na vida deles. Ela não pensava que as promessas dele eram verdadeiras,
ela nunca acreditou demais nos galãs de cidade pequena. Ela teve que dizer
“adeus” e pensou que ele ficaria bem.
Ele não ficou. Ele mudou, mudou muito, ficou seco e frio,
até mesmo com as amigas dela. Ele sumiu da internet e de seus caminhos.
Talvez o que os dois não entendessem é que sentimentos não
morrem assim, ainda arrisco dizer que sentimentos não morrem, eles apenas ficam
num lugar mais profundo do nosso coração, adormecidos num canto. Certas pessoas são únicas e
especiais num momento da nossa vida, elas nos fazem sentir coisas
inexplicáveis, são nosso chão e nossa coragem, pessoas assim têm que ser
lembradas com carinho, não excluídas da nossa vida, lembranças e guardados.
Ela pensou ter superado e esquecido até ler uma frase
qualquer nas redes sociais dele, a única que ela ainda tinha. A tal frase a fez
perder uma noite de sono e acordar as amigas no meio da madrugada para tentar
encontrar conselhos e saídas. Aquela história estava pendente, inacabada, pra
ela. Ele? Pela frase também sentia o mesmo.
Hoje ela passa suas tardes ouvindo John Legend e despejando
sentimentos numa folha de papel a fim de superar as incertezas, tentando
entender a bendita frase, com medo de perguntar e ele sair correndo. Ele parece
solitário e sozinho, não aparece mais nas fotos dos amigos, nem na fila do
mercado.
Eu, como uma mera expectadora, diria que uma história tão
bonita não deveria acabar assim, merece um final pacífico para ambos os lados.
Merece perdão. Espero que um dia, eles se trombem, se cumprimentem, tomem um
vinho, contem suas novidades, tenham uma D.R., riam dos velhos tempos, desejem
amor um ao outro e sigam suas vidas separadas, mas sem mágoa alguma. É só o que
eu espero.


Comentários
Postar um comentário